ouça

tenha calma
todos te dirão o que dizer
no momento certo

as palavras estão prontas
você só precisa comer um pouco
está fraco, é por isso

sente-se, assim
podemos conversar agora
tenho uma coisa entalada na garganta
uma palavra-pedra
um grão de arroz
o tempo.

tenha calma
vá devagar.

não precisa falar mais nada.
estou bem estou bem.

âmago

ogros. abutres: devoradores de alma. o infinito. significado, significante, signo. nada. esquecimento, apatia. consciente. inconsciente. desafio, bravura etc. besteira. psicologia, patologia. terapia. tudo. tosse. dúvida. dúvida. sociedade-indivíduo-sociedade.
louca – louco. espelhos-pessoas-paredes. imagem imagem loucura apagão. luz. imagem. luz. signo. nada. imagem. palavra. não.
solidão desejo loucura palavra-vácuo imensidão eu eu eu o fim tudo o dia tudo eu mundo mudo muda palavra-negação nada nada nada solidão.

descida

as plantas secas o jardim gris.
secas as margens de nós.
elos vazios, silêncio.
um muro.
uma ponte.
vozes assustadoras,
vozes reais?

rio.
rio sobre meus pés descalços:
eu vou até o fim do mundo,
eu vou ficar por aqui.

diante dos meus olhos cansados
ergue-se a máquina do mundo.

onde eu estou
eu não imagino.

mas o que fazer com essas sementes?

se arrumando

um dos olhos se contrai
com o levantar da bochecha:
um sorriso?
ele coça a cabeça, encosta-se. não,
está tarde, realmente muito tarde. então
olha o relógio, depois a parede vazia, depois
não sabe o quê, pois não vê nada. assim
as manchas se apagam, como sempre.
não é preciso ser mágico para sumir
com alguma coisa ou com alguém.
puxa o lençol para o lado, banheiro,
com seus passos de elefante de desenho,
delicadamente ruidosos, como se
os vizinhos fossem parte da apresentação,
vozes marcando a cena:
o jantar, as cadeiras, a família,
a porta, o beijo, o elevador.
hoje não ouviu, está cedo,
o barulho da água soando no encanamento
e o rosto molhado, respingando
até que a toalha o esconda.
aperta a descarga observando
tudo escorrer, tudo fluir. tudo bem,
você pensa em continuar?
a camisa está na mesa de cabeceira,
a terra não parou de girar,
a vida é uma dádiva, afinal.
caminha, como que despreocupado,
há muitos médicos bons, enfia os botões
na camisa olhando para a calça
no chão, onde está a carteira.
o jantar está servido, querido,
junto aos mesmos movimentos,
a oração e os talheres. o ritual
das vozes a se apagarem. sim,
a minha mulher preparou um prato
especial. põe a calça, olhando
os sapatos à porta e a porta,
próxima enfim. caminha
sorrindo, sem olhar
para trás. está tarde,
não é o fim do mundo.
o escuro é onde vivemos
desde o início.

dois palitos

eu dou a cara a tapa: não uso máscaras. aqui sou eu e eu apenas. não sigo nada, nem a moda nem a gramática. quero ver quem me pega: que me pegue, que me pague, que não sai barato. já deixei a porta pra trás e a rua dos pilantras. no tribunal, vestido todo certinho cabelo lambido suvaco limpo enfim, só o meu deus vai poder me julgar, me mandar pro inferno, fazer picadinho da alma que não vale nada: sou o que já fui, é tempo de ser outro, paralelamente, a milhão. eu não uso máscara, não uso nem capacete. é preciso se precaver, usar cinto de segurança e camisinha, é preciso se foder e levantar, é o que dizem. se for pra morrer já fui, se for pra ficar tem que ter por quê. qual é, não sei nem me importo com isso: o que já foi esqueço, o que for vir eu vejo na hora pra decidir e sigo em frente. as ruas todas cheias de idiotas, perambulando, andando em círculos, viajando, segurando o celular com uma mão e segurando o bolso com a outra com medo de ser feito de otário. otário já é, andando assim, andando pra lá e pra cá. andando.
– aí, o cadarço
otário otário, passo dando risada e cuspo depois vai que alguém pisa e contagia, vira palhaço, deixa de ser otário. se for pra morrer assim que merda, se não for é só pra adiar, vai acabar morrendo assim do mesmo jeito. olha o esteves ainda aí: não faz nada, não pensa em nada, não quer ser porra nenhuma nessa vida parece até que fez deus perder seu tempo, o meu tempo. isso, compra o jornal, estúpido.
– perderam, hein
e ele desembesta mais besta ainda, não calaboca, é isso e aquilo, é o técnico burro, é o jogador mercenário, é o imbecil do torcedor que sofre e vai na banca comprar essa porcaria pra saber o que já sabe de cor, que te faz papagaio de um engomadinho da tv, com as roupinhas que sonha em comprar só pra ver a filha se formando, mas só vai poder alugar, mas a filha nunca se forma, acaba na mão dos vagabundo, não é? político ou trafica tanto faz já era. já era.
pegaram esse, né, bandido do caralho
tudo igual tudo sempre igual, um maço de cigarro porque não é uma embalagem que vai me dizer o que fazer, porque eu penso além, vou depois, lembro da propaganda, de tudo um pouco, vou indo, não dá pra ficar em cima do muro, não dá pra se esconder, não dá pra bobear. de todo lado querem de passar a perna, te fazer de trouxa, cobrar mais caro do que vale a merda que vendem. mas quem é trouxa? quem?
– vê o mais barato então
e o mais barato é lixo, não tem meio termo porque o bom é pra poucos, o resto é resto mas é pra gente que tem que aguentar o olhar feio, tem que aguentar. fazer o quê. eu escolhi isso, eu escolhi, boto a cara a tapa já disse e repito: eu não uso máscara. amanhã tá todo mundo morto, se não amanhã depois de amanhã, e aí? fiz umas coisas, comi o que gosto, bebi demais, ouvi tanta merda que tive que dar descarga, depois falei besteira e fui mandado embora e voltei como se volta do inferno, que é pra aterroziar. e eu vou falar que não sou assim, que nunca fiz isso antes, que nunca aconteceu isso comigo e dar um beijinho como se recompensasse a cagada, a noite arruinada, o Amor. mas tudo acaba, sempre acaba.
– sim, pode deixar, tô voltando já
o cartão, pois não. bom dia, com certeza. é, jogão. não, acho que não chove faz dias que não chove deve continuar assim, deve esquentar até queimar teus sapatos engraxados, o capeta pessoalmente vir te perguntar o que ganhou sendo um filho da puta desses com seu óculos dourado e sua barba alinhada. pois é, não dá pra usar máscara assim, só se for pra esconder essa cara feia, esse olhar torto, essa boca sem boca. agora é caminhar, faço meu caminho e você faz o seu, como tem que ser, como já foi, vida miserável. um dia bem, o outro mal e o outro pior, depois nem sei, que aí quarta pra frente não dá pra imaginar. é tanta bosta pra todo lado, olha o menino, tem quantos anos? e é sempre pouco tempo, pouco demais.
– não, tô sem nada
e o que adianta? e o que importa? e amanhã? como vai ser? e o que importa? a gente se mede por baixo ou não se mede, a gente corre mas não descansa, assopra mas deixa as nossas feridas abertas, precisa ficar esperto, precisa se preparar, fazer o que mandam, não discutir, calar a boca, baixar a cabeça, se ajoelhar, rezar a missa, chupar até o final, ser feliz, viver ao máximo. é o que dizem. não dá pra bobear. não dá pra ficar assim, se tremendo todo, e a porta vazia, que ninguém mais volta pra casa e não tem mais casa e não tem mais nada, nem a máscara.